Max



O telefone tocou a primeira vez, não quis ter o trabalho de levantar da minha enorme poltrona velha e atender. Então tocou a segunda, a terceira e depois de um tempo a quarta. Provavelmente era alguém interessado em saber como eu estava... Maluca? Era sempre a mesma coisa depois que saí do hospital, era só "desaparecer" por algumas horas de seus celulares e redes sociais, não responder algumas mensagens, não atender algumas ligações, e pronto, havia pirado novamente.

A questão aqui é que eu nunca fiquei doente, nunca perdi minha sanidade mental como aquele médico gordo entupido de comida de microondas e viciado em analgésicos diagnosticou. Estúpidos. E era tudo culpa do Max, ele que me deixou desse jeito. Não louca, mas frágil. Frágil a ponto de não conseguir lutar contra nada, aceitar tudo o que ele me fazia por medo do que mais ele pudesse fazer. E depois de longos anos, quando eu enfim arrumo forças para fugir, pronto, sou louca. Mandem-na para um hospício, e rápido.

Ouvi uma gota caindo no chão da minha cozinha.

A verdade é que depois de um bom tempo vivendo um pesadelo você não diferencia muito bem as coisas. Você não sabe quem quer te ajudar e quem só quer o seu mal, você não sabe onde ir, onde ficar e o que fazer. Tudo na sua cabeça é uma ameaça, nenhum lugar é seguro, ninguém é digno de confiança. Tudo que você quer é fugir daquilo.

Outra gota na minha cozinha.

Então você encontra uma chance, talvez sua única chance e não pode perdê-la. Quando Max sai para comprar uns cigarros, ah como eu odiava aqueles cigarros, você ouve dois toques de buzina vindos do carro parado na sua rua, era o sinal, pega uma carona sem carregar nenhum documento ou mala, só com umas notas no bolso. Depois sobe em um trem lotado de imigrantes latinos e outros fugitivos, também fugindo de seus pesadelos, e vem um certo alívio em meio a adrenalina. Doze dias vagando sem rumo, que foram os mais felizes da sua medíocre vida, e então uns policiais te encontram, e você, com a esperança dilacerada nos olhos, tenta explicar como veio parar ali e porque não podia voltar. Louca. Mandem-na para um hospício, e rápido.

Outra gota na minha cozinha.

Era óbvio que Max não me procurou, quem ligou para a polícia e iniciou as buscas foi meu vizinho, "que já desconfiava da minha loucura", segundo ele. Max também não foi me visitar no hospital, na verdade poucas pessoas foram, isso é o que acontece quando você não tem familiares ou amigos íntimos, só colegas de trabalho e vizinhos, que na maioria das vezes são só números na sua vida. Eles ficaram encarregados de me ligar, conversar comigo e conferir como eu estava, segundo os médicos era bom ter amigos. Mas eles não eram meus amigos, não mesmo.

Outra gota na minha cozinha.

Depois que eu saí não podia voltar pra casa, claro, mas o pessoal do hospital fez questão de me levar. Quando chegamos as portas estavam trancadas, uma enfermeira guardava as chaves e entrou comigo, a casa estava vazia, ela me deu um abraço e me desejou paz. Dormi e tive as semanas mais normais dos últimos três anos. Mas claro que o Max ia voltar, ele sempre voltava.

Mais uma gota na minha cozinha.

Liguei várias vezes para o hospital, e para alguns dos conhecidos que me monitoravam, mas disseram que eu tinha depressão, depois síndrome do pânico e por fim esquizofrenia. Me disseram, mais uma vez, que o Max não era real.

Ah, mas o Max era muito real. Agora ele estava morto na minha cozinha.

Precisava conferir aquele sangue pingando no meu piso, antes que a poça no chão, a essa altura já bem grande, atingisse o tapete e os móveis. A cadeira, da qual seu corpo pendia, provavelmente seria descartada, mas não ia me desfazer dos meus tapetes indianos e dos móveis de carvalho. Não por ele. Ele não valia nem o sabão que eu iria gastar pra limpar o sangue das minhas mãos, que, a propósito, ainda estava nelas.

Fitei a faca sobre a pia, depois os lugares onde ela havia perfurado, rasgando a pele, a carne, o ódio e o que mais estivesse dentro. Estava tão tranquila que isso me assustava. Enquanto pensava o que fazer com o cadáver do homem que eu sempre desejei morto, concluí que esse era um bom final para a minha história.

Eu poderia escrever um livro.



Sei que esse é um conto/crônica maior do que os que costumo postar aqui no blog, por isso já espero que poucas pessoas leiam. Daria pra dividir em duas partes menores, eu sei, mas detesto fazer essas coisas, acho que quebra a história no meio. Bom, nunca tinha escrito algo que envolvesse um assassinato, mas do nada comecei a digitar (como sempre faço) esperando sair alguma coisa e saiu isso, devo estar meio perturbada, haha. Mas não é que gostei? Gostei tanto que quero trabalhar melhor esse texto depois, com mais tempo e inspiração, e transformá-lo em uma narrativa mais longa e elaborada. Quem sabe...



8 comentários:

  1. Pode ter certeza que desde a primeira frase eu fiquei mais curiosa para saber o que aconteceria.
    Quando sai o livro Jul?
    Haha, adorei!!
    Beijos ♡

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  2. Incrível! Muito bom mesmo!

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  3. Caraca! Inesperado e surpreendente. Amei *O*

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  4. Que incrível, Ju! Achei seu blog hoje e esse texto me deixou intrigada hahah. Pra mim ainda falta mais história, mas adorei!
    Vou seguir seu blog e deixo o link para o meu. Também posto algumas crônicas por lá...
    tenteiescreveresseblog.blogspot.com

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